Nunca me considerei culta o
suficiente pra ler Clarice Lispector, mesmo amando profundamente tudo o que ela
escreveu. Nas minhas humildes considerações, presumia que para ler Clarice era
necessário ser entendida do mundo, era preciso ser digna de ter o direito de
lê-la. Em outras palavras, eu considerava uma leitura restrita à nata
intelectual da humanidade. Coisa boba essa minha, mas levava muito á sério. Até
que um dia, eis que um fato marcante aconteceu. Entrei numa livraria perfeita,
daquelas paradisíacas para os amantes dos livros. Até onde meus olhos
alcançavam, só conseguia ver livros. Pra onde eu olhava, lá estavam eles.
Grandes, pequenos, de capa dura, de capa maleável, de bolso, de escritório, de
brochura, grossos, finos, largos, compridos, estreitos... UAU, eu podia me
perder lá dentro com o propósito de nunca mais encontrar a saída. Foi então que
me veio uma vontade súbita de folhear – ao menos – um livro da minha tão
idolatrada Clarice. Já estava indo ao encontro de uma atendente, quando me dei
conta que seria estupidez a minha. O atendente iria rir da minha cara, de certo
iria pensar “o que ela fará com um clássico como esse?”. Sendo assim, decidi
que eu mesma me aventuraria naquela imensidão livresca. Quando enfim achei um
exemplar, não me continha de alegria. Peguei-o nas mãos e folheei-o como se o bebesse.
Nesse momento nada mais me importava, nem sabia onde eu estava pra falar a
verdade. Passado alguns minutos da apreciação, minha mãe veio ao meu encontro e
perguntou se aquele seria o livro do mês. Permiti-me e respondi de imediato que
se não fosse aquele, não levaria nenhum outro. Para encurtar a estória (ainda
quero usar essa palavra, mesmo tendo ciência de que “estória” pode ser usada
como “história”), no livro que comprei tive a imensa sorte de ler um conto na
qual me identifiquei muito. Este relata uma experiência que Clarice teve com um
livro emprestado de uma amiga (“As reinações de Narizinho”), onde ela descreve
como foi a sensação de lê-lo. O trecho segue abaixo e pode-se supor que minha
identificação aconteceu devido ao fato de que minhas emoções foram similares,
senão iguais, às vividas por minha querida Clarice.
“Eu estava estonteada, e assim
recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí
pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro com as
duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa,
também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração estarrecido,
pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só pra
depois ter o susto de ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas, fechei-o de
novo, fui passear pela casa, adiei mais comendo pão com manteiga, fingi que não
sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as
mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.
Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Era uma rainha
delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no
colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menininha com um
livro: era uma mulher com o seu amante” (LISPECTOR, Clarice. “Tortura e Glória”
em Aprendendo a Viver, p. 18).
PS¹: Eu e minha mãe temos um
combinado, ela me dá um livro por mês. Para os curiosos, o meu primeiro livro
foi “O Guia Oficial de House”.
PS²: Eu leio um conto por noite
da Clarice, assim aproveito mais o livro.
PS³: Isso foi escrito às 4hrs da madrugada, perdoem as bobices.